Bom dia Sr. Primeiro Ministro,
O senhor não me conhece, mas isso não interessa nada, porque eu sou afinal mais um número no meio de tantos outros, que lhe vai permitir aumentar os cofres do Estado.
Se ela ainda existisse, eu pertenceria à chamada "classe média". Isto porque apesar de não ganhar fortunas, também não ganho miseravelmente e não tenho (ainda!) de ir bater às portas das misericórdias para ter o que comer.
Sim senhor Primeiro Ministro, a minha vida financeira explica-se facilmente em meia dúzia de lançamentos contabilísticos: Entra o ordenado a débito na conta de caixa e bancos, por contra partida das vendas (que é o meu esforço de trabalho), depois, sai quase todo, nesse próprio dia, para FSE's que isto uma pessoa tem de comer, pagar a luz, água, rendas e afins. Portanto, FSE's a débito e caixa e bancos a crédito. Não obstante, falta ainda pagar mais um qualquer imposto, por isso o movimento é similar ao anterior.
E é isto senhor Primeiro Ministro. Eu disse-lhe que era simples.
Cada vez mais, eu e outros como eu, vivemos para pagar contas e impostos. É o que eu faço melhor, não duvide. Depois de nos levarem quase todo o produto das nossas vendas (trabalho), pouco sobra para, por exemplo, investimentos, pesquisa em I&D, compras diversas, etc.
Cada vez mais nós sobrevivemos e não vivemos. O patrão da Jerónimo Martins disse que ninguém tem motivação para ir trabalhar e no fim do mês ganhar 500€. De acordo. Mas olhe que a motivação também começa às vezes a falhar para aqueles que pagam contas e não geram lucro, senhor Primeiro Ministro. O meu resultado líquido é zero. Os impostos e gastos do período levam-me todos os rendimentos.
E as idas ao cinema? E os passeios por esse Portugal fora (que bem necessários são para alimentarmos a indústria do turismo, que, como as outras, já viu melhores dias)? E os almoços/jantares em restaurantes?
E a vida, senhor Primeiro Ministro?
Repare que as pessoas são mais produtivas quando estão felizes (vá-se lá entender, mas olhe, há estudos que o afirmam), e se não estou em erro, é mesmo disso que o país precisa, de aumentar a sua produtividade (para isso é que queria baixar a TSU das empresas, não era?). Mas repare que então está a ser contraditório com as medidas que propõe.
A populaça está tudo menos contente. Ficaríamos contentes se se extinguissem mais fundações, se se cortassem aos ordenados dos assessores, ministros e altos cargos de empresas públicas, se se renegociassem as parcerias público-privadas.
Mas afinal, que sei eu senhor Primeiro Ministro, que sou apenas mais um número para proporcionar rendimentos ao Estado?
Eu pago. Mas bufo.
1 comentário:
Toda a razão no que dizes... somos número neste momento.
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