Imagine o leitor que vive num país extremamente desigual. Imagine ainda que existe um sistema de Estado-providência, que supostamente, com o dinheiro dos impostos de todos, está incumbido de proporcionar à sociedade determinados bens e serviços, como educação, saúde e segurança, e de reduzir as desigualdades.
Imagine que esse Estado, não apenas não reduz desigualdades, como ainda as agrava, e os serviços que fornece, passam a enfrentar uma diminuição de qualidade. Não obstante, pedem-lhe para pagar mais pelos mesmos.
Você paga. O Estado, continua gordo e faminto, por isso pede-lhe um pouco mais. E você continua a dar.
É isto que se passa neste momento.
Com o chumbo do corte dos subsídios aos funcionários públicos, por parte do Tribunal Constitucional (alegadamente porque criariam desigualdade, onde é que já se viu desigualdade neste país...!), o Governo teve de arranjar forma de ir sacar esse dinheiro a outro lado. No fundo, em vez de cortar na despesa, aumenta a receita. Vai dar quase ao mesmo. Ou então não.
Com o recuo na decisão de subida da TSU para os trabalhadores, o Governo aumenta o IRS. Basicamente deixa de tirar dinheiro do bolso direito para passar a tira-lo do bolso esquerdo.
Ora, estas medidas, diz Vítor Gaspar, são mais igualitárias. Vamos lá então à igualdade: até há bem pouco tempo atrás, trabalhar no Estado sempre foi sinónimo de estabilidade, de emprego para a vida, de boas condições remuneratórias e horários cumpridos ao minuto. No privado nunca assim foi. Se é verdade que, em média, os funcionários do privado obtêm uma remuneração superior aos congéneres do público, não é menos verdade que a produtividade no sector privado é maior do que no sector público, que as horas trabalhadas são mais, que as empresas se deslocalizam, ao contrário do Estado que nunca sai do seu lugar.
Portanto, a meu ver, os funcionários do privado e do público sempre foram discriminados entre si. Se eu trabalho, em média, mais horas e com maior produtividade do que um semelhante meu no sector público, é de esperar que eu receba uma remuneração mais atractiva. Até porque a minha empresa pode fechar, pode falir. Eu posso facilmente ser despedida. O que no público não era bem assim.
No público, as mães têm direito a praticar o horário de amamentação, a ter redução de horário de trabalho por terem filhos até alcançarem determinada idade.
Nunca vi tal no sector privado.
Não condeno as boas condições de que os funcionários do sector público dispunham! Aliás, creio que todos deveríamos ter as melhores condições, sempre. Mas é natural que, perante uma necessidade de corte de despesa, o Estado resolva agir sobre os seus funcionários.
Porque se a minha empresa decidir cortar o vencimento de todos nós porque atravessa dificuldades (e quem diz a minha, diz todas as outras), os funcionários do sector público não vão passar a descontar uma parcela adicional do seu salário para nos ajudar.
Acho bem que exista solidariedade profissional. Mas para isso, tinha de existir dos dois lados.
Com esta brincadeira do aumento dos escalões do IRS, a classe média fica ainda mais esmagada, perdendo o ínfimo poder de compra de que dispõe. Continuo a achar que a subida de impostos faz mais mal que bem, tendo em conta o momento actual da nossa economia, e numa perspectiva de crescimento.
Continuo a achar que os efeitos da subida de tributação serão demasiado perversos, uma vez que já atingimos o ponto máximo da tributação.
A ver vamos. Pode ser que eu esteja errada.
2 comentários:
Eu juro que não percebo isto. Num minuto estão a dizer que não vão aumentar os impostos porque já não há margem para tal. No minuto a seguir, não estão só a fazê-lo como dizem que é a medida mais justa. O país está cada vez mais podre, há cada vez menos poder de compra. Como esperam recuperar a economia assim?
Como disse cá em casa, o governo não tem noção de como é difícil gerir um ordenado comum.
Quem recebe 3000€ não é rico. É pseudo-rico. Recebe o suficiente para viver confortável. Ricos são os que recebem 10.000€/mês. E aumentar, e bem, os impostos dessa gente? Ninguém morria por comprar um par de sapatos a menos ou passar menos um fim-de-semana fora.
Não. Vamos cortar nos que recebem 700€ e eles que se lixem.
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