Conhecem a história do patinho feio? É uma das minhas favoritas.
Na verdade, desde muito nova até determinada idade, me senti como o patinho feio. Eu nasci na década de 80, tendo passado a minha infância nos anos 90, anos onde a moda ditava que loiras de olhos claros é que eram bonitas. Ora, eu morena de cabelo castanho não me enquadrava minimamente nesse perfil. Portanto, beleza (segundo os padrões da época), népia.
Sendo uma miúda proveniente de uma família turbulenta e de parcas posses, também não podia impressionar ninguém com os meus bens, ou convidar os meus amiguinhos de escola para um lanche. Menos um ponto a favor.
Como era extremamente reservada e pouco faladora, também não era criança de grandes conversas. Lembro-me de me preocupar com a Guerra do Golfo enquanto os meus coleguinhas se divertiam com coisas mais próprias da idade.
Todas estas características fizeram de mim, até final da adolescência, um zero à esquerda no que respeita à popularidade. Continuei muito reservada, e, como não era propriamente a miúda popular e gira, não tinha muitos amigos. Nunca tive. Portanto, basicamente, eu era uma nerd.
Tinha muito boas notas sem me esforçar minimamente, os meus testes percorriam a turma com o intuito de serem copiados. Mas nunca fui popular. Sempre fui aquela miúda calada e nerd de quem se copiavam os testes. E passado um tempo, deixei sinceramente de me importar. Como a escola onde eu andava era frequentada por autênticos selvagens, as meninas não podiam ir de vestido ou saias, pelo que eu envergava, todos os dias, um belíssimo de um fato de treino. Sim, eu era nerd a esse ponto.
No início do 9º ano mudei de escola e fui para aquela onde terminei o 12º ano. Por questões burocráticas, acabei por ir calhar a uma turma que, no 9º ano, possuía uma média de idades a rondar os 18, 19 anos. Como devem imaginar, eu era novamente a nerd e pouco popular da turma. Nesse ano quase não pus os pés nas aulas. Não suportava aquela turma e o modo como me tratavam, e decidia que tais personagens não mereciam ser brindadas com a minha presença. Como sempre tive muito jeito para a imitação, a justificação de faltas era uma mera brincadeira.
Sem saber como, terminei esse ano com óptimas notas, na linha dos anos anteriores.
No meu 10º ano fui para uma turma em que a população estava totalmente de acordo com os meninos e meninas da Casa dos Segredos, uns anos mais novos. De 30, passaram 6.
Até que eu, com 16 anos, descobria que até era magra (passei anos a considerar-me uma orca), tinha uma cara engraçada, e que a maquilhagem e a roupa faziam milagres. Passei a arranjar-me de forma totalmente diferente, e toda a gente reparou. Nesse Verão, conheci o amor da minha vida, que, felizmente, nunca me conheceu na minha "fase má", pelo que não existem memórias embaraçosas desses tempos.
Eu era aí uma rapariga que tinha adquirido alguma auto-estima. Os rapazes reparavam, finalmente, em mim.
Na faculdade, eu era uma das miúdas mais populares do meu ano. Tinha o meu grupo de amigos e foi, sem dúvida, o melhor momento académico de toda a minha vida.
Eu sou a prova viva do paradigma da miúda "patinho feio": como não era bonita, acabou por desenvolver outras capacidades como o sentido de humor, a cultura geral, etc., e, tendo-se transformado subitamente em "miúda gira", ficou com "o pacote completo".
Gosto de pensar assim. E gosto de pensar na necessidade de cultivarmos o nosso intelecto. Porque por mais giras que sejamos, tudo é efémero, sobretudo a beleza.
6 comentários:
Gostei muito de ler, até porque me identifico um pouco com a tua história. Hoje até posso ter as minhas dúvidas e inseguranças, mas estou muito mais confiante comigo. E sou inteligente - e, parecendo que não, ajudou-me a ultrapassar a pouca auto estima.
Eu costumo dizer que a beleza interior cativa cada vez mais do que a beleza exterior, pois a exterior qualquer pessoas pode ter se se arranjar melhor já a interior essa tem que ser criada a cada dia e não é para todos! ;)
Gostei muito do texto. Eu andei numa angústia terrível com a guerra do Golfo. E fui uma curiosa mistura entre nerd anti social e "menina da moda". Como cresci depressa dava um bocado nas vistas ...precisei de dar tareia nos selvagens, mas tareia a sério! Essa fase é muito complicada, mas como felizmente me refugiava nos livros acabou por não ser mau de todo.
Isso é tão bom, fico mesmo feliz por ti. Deste a volta.
Conheço essa história! Nos tempos do liceu, era vítima de bullying praticamente diário, até ao 9º ano. Depois entre o 10º e o 12º a coisa foi melhorando! Soltei o grito de Ipiranga na minha viagem de finalistas. A partir daí foi um ver se te avias... :D
Beijinhos
Obrigada pelos vossos comentários. :)
A verdade é que quando passamos por estas situações, acontece uma de duas: ou descarrilamos, ou tornamo-nos melhores e mais fortes. Creio que foi isso que aconteceu connosco. E ainda bem :)
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