Chego a Portugal e deparo-me com um cenário de mais austeridade. Aos poucos (mais depressa do que gostaria, contudo...), o país afunda-se numa austeridade que parece não conhecer limites, em virtude das exigências dos mercados, esses seres sem face e sem escrúpulos, que detorpam as economias mundiais, dizendo que são lixo, fazendo juízos de valor sobre as dívidas que emitem, que não confiam, que nunca estão satisfeitos, que querem sempre cobrar mais juros.
É em virtude dos mercados que descemos para um poço sem fundo, onde não há água, mas sim mais austeridade.
Sim, eu sou economista de formação e sim, eu exerço a profissão. Contudo, não tenho pretensões de perceber mais de economia e finanças públicas do que os senhores que estão lá nos ministérios a fazer as contas e a tentar decifrar que medidas aplicar ao país, para agradar aos tais mercados. Ora, assim sendo, existem dúvidas que me assombram, que provavelmente são dúvidas estúpidas na medida em que aqueles senhores percebem muito mais disto do que eu, mas não posso deixar de as colocar:
- Sendo que o rendimento disponível dos consumidores diminui (rendimento após impostos), em que medida poderemos manter os actuais parâmetros de consumo e poupança? Sendo certo que ambos diminuirão, como sobreviverão as empresas, que venderão menos, e como se criarão novos empregos, dado que a tal poupança individual diminuiu e o recurso ao crédito está totalmente limitado? Adicionalmente, o PIB diminuirá, visto que esses efeitos negativos se alastrarão na economia, perante a diminuição de produção (menos consumo) e consequente diminuição de empregos. Com a redução do PIB, o que se traduz em menos dinheiro gerado, como pagamos as nossas dívidas ao exterior? E mais importante, como invertemos o círculo vicioso da pobreza? Sim, são necessárias medidas estruturais para tal.
- As empresas que irão sofrer uma diminuição da TSU, vão aproveitar para aumentar os lucros (as que ainda têm lucro). Mas como irão empregar mais pessoas ou sequer manter os actuais funcionários se o consumo se retrai e não há procura para os produtos que oferecem?
- Se os descontos para a Segurança Social servem para que todos tenhamos regalias sociais, como é que essas regalias diminuem se vamos descontar mais?
- Podemos ainda falar no princípio da equidade: quem ganha 500€ mensais, vai descontar os mesmos 7% adicionais do que quem ganha 5.000€. O princípio da equidade foi substituído pelo princípio da igualdade: igualmente mau para todos.
Senhores, Keynes e outros economistas dissertaram sobre este tema- o efeito de uma subida de impostos na economia. Se os seus modelos estão algo ultrapassados, é outra questão, mas as suas premissas apresentam-se correctas, é um mecanismo imediato de causa- efeito.
E não senhores, isto não é uma pergunta.
3 comentários:
Tu sendo economista pudeste fundamentar aquilo que eu questiono já desde há algum tempo.
Obrigada por isso.
Eu não sou economista mas até fazendo um raciocinio basico de mercearia (que é o meu) eu chego às mesmas conclusões; achas mesmo que os tipos sabem mais do que tu? do que eu?
Não me parece!
Eu não sou economista, mas felizmente tenho dois dedos de testa e sei somar 2+2. Coisa que, aparentemente, estes senhores não são capazes. Tudo isto que tu agora escreveste, veio confirmar aquilo que eu já tinha pensado. Só um comentário, sobre a diminuição da TSU, uma amiga minha saiu-se com um comentário que eu acho certeiro: não é para as entidades patronais empregarem ninguém, mas sim para aumentarem a cilindrada dos seus carros. Beijinhos***
Meninas, obrigada.
Estes mecanismos dão-se em princípios de Macroeconomia. Mas creio que não é necessário uma licenciatura em Economia para se perceber o mecanismo, quando explicado. A Economia é uma ciência de lógica, eu é que não percebo a lógica destas medidas.
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