Muito se tem falado ultimamente de dinheiro e estilos de vida. Eu também já por aqui falei desses assuntos que tanta polémica têm gerado. No fundo tudo se resume a dinheiro (como diz o Kevin do Shark Tank, "it's all about the money").
Nasci numa família pobre. Tive direito a todo um conjunto inesquecível de experiências, desde ter ratos em casa, insectos e similares, desde só ter pão e sopa para comer, de ter os livros da escola semanas depois dos meus colegas, porque não havia dinheiro para os pagar a todos, enfim, entre outras experiências que nos moldam e nos obrigam a crescer e ver as coisas de uma perspectiva diferente. Alguns dos meus colegas passavam por isso, outros não. Alguns tinham roupas melhores do que as minhas, mas nunca liguei muito a isso. Na verdade sempre fui crescendo sem me preocupar muito com o que os meus colegas tinham, pois eu sabia que era mais pobre do que a maior parte deles, e por isso não havia muito a fazer. Sempre que queria alguma coisa, a partir dos 16 anos, como trabalhava, juntava dinheiro para o conseguir e pronto, a minha vida ia seguindo. Mas a minha percepção do mundo alterou-se quando entrei na faculdade. Até ao momento nunca me tinha sentido discriminada por ser pobre. O que realmente eu sentia falta era de uma família, não era das coisas que os meus colegas tinham. Ora como eu dizia, apenas quando cheguei à faculdade senti que era verdadeiramente diferente das outras pessoas e era posta de lado por causa disso. Eu trabalhava, coisa que na minha faculdade não é minimamente comum, até porque não existem horários pós laborais. Adicionalmente, grande parte dos meus colegas eram pessoas que viviam muito bem. Carros de alta cilindrada aos 18 anos, cursos de línguas, aprendizagem de instrumentos etc. Roupas de marca. Todo esse universo era estranho para mim e senti que era olhada de lado pelas minhas parcas posses. No entanto, esses anos também foram os melhores da minha vida, pois conheci aquelas que considero serem as minhas amigas de coração. E uma delas, não tendo nem de longe nem de perto os problemas financeiros que eu tinha, explicou-me com muita paciência o que eu não tinha percebido até então: gente com dinheiro, dá-se com outras pessoas com dinheiro. Não existem muitas excepções a essa regra, porque estas pessoas já se conhecem desde sempre, andaram nos mesmos colégios, as famílias são conhecidas, etc. E é assim que funciona, mas eu realmente nunca tinha percebido isso até aquele momento. Para mim hoje é claro como água. Existe uma espécie de divisão invisível entre as pessoas, divisão essa marcada pelo dinheiro. Apenas e só. Como diz essa minha amiga, há que separar o trigo do joio (ironia). Mas há quem realmente pense assim. As coisas são como são e não há nada que possamos fazer. Por isso eu quero é que os meus filhos se dêem com pessoas de bom coração, independentemente das posses que tenham ou deixem de ter. É nesse sentido que os vou educar.
Lembro-me como se fosse hoje, de, no primeiro ano de faculdade, um rapaz que eu até considerava simpático, me ter dito que eu era muito gira, mas que não me convidava para sair por causa do carro que eu conduzia, que não podia ser visto com alguém com um carro como o meu.
Respondi-lhe que não tinha qualquer interesse em sair com ele, que não me dava com as pessoas pelas suas posses. Esse foi o momento em que eu percebi a realidade que nos rodeia. Se depender de mim, não é este tipo de pessoas que quero por no mundo, caso contrario só ficamos com o joio.
4 comentários:
Mas como é que ainda há pessoas assim tão pobres de espírito? Eu andei numa escola boa, com muita gente muito rica e posso-te dizer que algumas delas são das pessoas mais mal educadas, arrogantes, parvas e ignorantes que eu já conheci na minha vida.
Eu como tu conheci as dificuldades e isso moldou-me para o bem e para o mal; em casa não havia muito dinheiro, mas tinhamos educação, valores e muito amor e foi isso que tentei e tento sempre passar ao meu filho.
O resto, o resto não interessa nem ao menino Jesus!
Beijinhos Bomboca ( a ver se isto agora entra...)
Vá lá não te podes queixar muito. Ias de carro para Universidade? Eu ia a de comboio, depois tinha de apanhar um autocarro ou andar a pé quase uma hora. Apanhei muito frio e chuva mas fui uma das melhores alunas da turma e até recebi um prémio de mérito escolar. Não considero que tive uma infância pobre nunca me faltou o essencial na alimentação e muito menos a higiene mas nunca tive luxos de nenhum tipo. Convivi sempre com gente com muito mais dinheiro do que eu (alguns muito ricos mesmo) e fiz amigos entre eles. Não me leves a mal mas acho que o que pode afastar algumas pessoas com algum "nível social" de ti não é seres rica ou pobre é a forma como te comportas. Se apostares em seres mais educada, mais delicada, mais civilizada consegues dar-te com todo o tipo de pessoas. E é assim que deve ser.
Eu também já fui vítima de preconceitos... e quiçá, por tal, tornei-me uma pessoa dura e fria (e daí não confiar, etc...)
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